Agradecer

Agradecer

Às vezes, sentada à secretária do meu escritório agradeço o trabalho que tenho.

Sou publicitária. Soube que o queria ser quase desde que deixei de pôr mal o batom encarnado da minha mãe.

Lembro-me bem que queria ser “aquelas” pessoas que faziam os outros sonhar através dos filmes que passavam na televisão. Claro que tive outras ambições mas passaram me todas rápido demais.

Apesar das infidáveis discussões com os meus pais sobre tudo e sobre nada, depois de vários amuos ou discussões mais acesas, nunca me esqueço que eles sempre me deixaram escolher o que eu quis ser. Os meus pais nunca me obrigaram a escolher entre Direito, Gestão ou Engenharia. Disseram- me sempre para fazer o que quiser, desde que o fizesse com o coração todo.

Eu destestava matemática, também era demasiado distraída para gostar de quimíca ou de ciências,  português era tolerável mas mesmo assim o recreio parecia-me sempre uma alternativa bem mais interessante. Uma das minhas primeiras professoras da primária chamava-me “cabeça de vento”. Não posso dizer que fiquei traumatizada com o termo, mas também não gostava muito, até porque a minha professora era muito expressiva e nunca deixava nada por dizer. Uns anos mais tarde, a minha linha de pensamento dizia-me que o vento seria uma força da natureza. Ora, se eu era uma cabeça de vento então eu seria, por essa ordem de lógica,também uma força da natureza, sendo assim não me parecia assim tão mal.

Mesmo assim, sempre me senti esquisita por ser tão distraída, chegava a ser mesmo pertubador a falta de controlo que eu tinha na minha cabeça – saltava de ideia para ideia em segundos e processava-se tudo muito rápido. Ainda hoje acontece, mas agora que eu sei que o indíce de atenção do ser humano é inferior ao de um peixinho dourado parece me que afinal estou numa média socialmente aceitável.

Os meus pais tiveram a capacidade de perceber que eu nunca seria advogada, nem gestora ou engenheira.  Aos olhos deles, nunca fui nem mais nem menos porque não querer seguir uma destas três carreiras. Provavelmente, achavam só que eu tinha que pensar melhor naquilo que queria ser, mas seria importante respeitar a minha individualidade.

Acredito que existem pessoas em gestão e em direito muito realizadas, são profissões que exigem muito, em que a vocação tem quer ser enorme. Por isso, agora não venham dizer que “Aquela do blog disse que as pessoas de direito ou de gestão são todas umas infelizes (não disse, nem nunca vou dizer isso).  Por outro lado, não acredito que nem 15% das pessoas que ingressam com 18 anos num destes dois cursos vão de livre e espontânea vontade porque sabem exactamente aquilo que querem. Ouve-se muito: “Direito é um curso abragente, eu odeio matemática por isso vou para Direito”. E pronto, fica tudo muito contente porque é um curso muito abrangente. Ou “ Não, imagina, eu quero trabalhar em organizações de eventos, secalhar é melhor ir para Direito porque é mais credível”. Desde quando? A credibilidade reflete-se quando nós próprios levamos a sério as nossas vontades e as nossas paixões.

O preconceito à volta de profissoes em Portugal é monstruoso.

 É uma brutalidade crescermos e sermos obrigados a chamar as paixões de hobbies e as obrigações de empregos.