Casa

Casa

Aqui ainda ninguém me chama pelo nome nos cafés e ainda não chamo as ruas por tu.  

Acredito que voltar a casa é respirar bem e fundo. É saber entrar em casa de venda nos olhos e saber onde estão os talheres, é abrir a porta de casa e gritar que se está, de facto, em casa e é perguntar o que é o jantar várias jantar durante o dia. Há vezes que o turbilhão que sentimos na nossa casa interior nao nos deixa voltar ao seguro, ao confiável e ao jantar a horas. Voltar à raiz é corajoso, porque é profundo e porque pode doer. Pode doer porque ver de onde voltámos mostra-nos porque é que fomos, e ter ido às vezes pode ser sinal de que um dia quisemos fugir. 

Aqui ainda ninguém me cobra se os talheres estão no sitio certo mas ninguém me pergunta se quero jantar, e eu às vezes, muitas, quero jantar. Aqui ninguém me quer influenciar para ir por ali ou por aqui, e há vezes que isso é a maior libertação que posso sentir, mas há vezes que um mapa de presente me dava jeito. 

Tenho percebido ao longo do tempo que esta minha casa já existia e que já estava decorada antes de eu achar que estava. Acho que eu já morava nesta casa onde a roupa nao se organiza por cores, onde há sempre flores e onde a loiça fica por lavar. Faltava-me um endereço e um código postal, mas agora tem. Essa casa que eu sonhava tem agora o meu nome escrito à porta e eu entro todos os dias sabendo de vendas nos olhos onde estao os talheres, a casa em que eu grito que já cheguei e a casa em que pergunto, todos os dias, o que é que se vai jantar hoje.