Este sol bom

Este sol bom

 

Ver um raio de sol dá-me vontade de largar os sapatos em casa e andar na rua de pé descalço.

Quando o tempo bom chega,  quando passo a chamar a praia de casa , quando o sol me vê a cantar para as conchas e quando o mar me leva todas as angústias, passo dias sem calçar uma sandália sequer, nem para ir ao supermercado.

Quando eu era pequenina, a minha mãe gostava de me ver bem vestida, gostava que eu tivesse camisas com golas brancas redondas e que calçasse sapatos que magoavam. Às vezes ralhava comigo porque eu não gostava, outras vezes não dizia nada e eu aproveitava para fazer o que me apetecia. Hoje em dia, às vezes ri-se comigo por eu ser tão diferente dela em tanta coisa e outras vezes ainda me diz que podia andar mais “arranjadinha”.

Desde que me lembro, foi sempre na nódoa e no defeito que me encontrei. Profundamente na minha alma eu acredito que sujar e limpar, ou não, é melhor que nunca sujar. Eu prefiro sujar ao exagero, mas acredito que pode haver moderação. Acho que andar descalça traz-nos isso, traz-nos o calo, traz-nos o pó e o sujo e traz-nos histórias para contar. E eu gosto disso. Também  gosto da sensação de oportunidade que é limpar e poder fazer tudo outra vez ou mudar tudo uma e outra vez, isso eu também gosto até à exaustão.

Andar descalço também é sinal de humildade, ás vezes andar descalça faz-me tropeçar em chão que pica e que magoa, aí precisamos de alguém que nos segure, que nos pegue ao colo que se pique por nós, que nos tire os picos com cuidado e que depois se ria connosco. Por isso, para os chãos que piquem desta vida, seja no sentido figurativo ou não tenhamos sempre pessoas que andem descalças ao nosso lado pela vida toda.