Medo

Medo

Duvido muito de mim, seria tão pouco verdadeira se dissesse o contrário que seria penoso para mim.

Entre os dezasseis e os dezanove sofri muito, porque pensava demais em mim e porque me auto-destruía a uma escala assustadora para alguém ainda tão pequenino. Não sei se sofri de uma depressão clinicamente comprovada, mas sei que o peito me pesava, as lágrimas caíram-me muitas vezes enquanto eu estava sozinha e foram muitas as noites de angústia em que gritar para dentro era terrivelmente sufocante.

Não me custa falar sobre isso porque sempre quis que os assuntos sobre saúde mental fossem abordados de maneira natural como se falássemos de uma gripe ou de um osso partido. Quando estamos doentes não há que ter vergonha em partilhar, não somos menos nada por falar da nossa saúde mental com outras pessoas,  não tem que haver pudor em falar abertamente sobre isso, estar bem ou mal mentalmente faz parte do nosso eu inteiro por isso não me parece que haja alguma coisa de errado em falar sobre isso.

Na minha opinião, toda a gente já experienciou partes da depressão, um lugar frio e isolado de tudo o que chamamos por tu.

A depressão só vai embora quando começamos a perceber que temos de lutar por nós e isso pode começar com uma conversa que nos tire o peso de uns ombros que já não aguentam mais uma grama sequer.  Quando a partilha começa a fazer parte da nossa vida é comum começarmos a perceber que existe do outro lado alguém que já terá passado por situações semelhantes. Ao contrário do que se possa pensar, a partilha deste tipo de temas não nos afasta uns dos outros, por norma até tem o efeito contrário.

Mais recentemente, percebi que muita coisa que eu tinha passado em adolescente tinha voltado – As dúvidas, as ansiedade e também algumas noites dificeís de passar. Eu passei por cima de muita coisa antes e escondi o meu lixo mental para debaixo de um tapete e embalei-o numa cave imaginária trancada a mil chaves. Uns anos mais tarde foi-me natural perceber que esses medos pudessem ter voltado para que eu pudesse resolver o que a minha mente não teria conseguido fazer sozinha. Falar ajuda-me, não fingir que está sempre tudo bem ajuda-me, andar sempre a correr atrás do lado mais verdadeiro das pessoas e da vida ajuda-me e acho que vai-me ajudar para sempre.  

Estou em progresso, como todos nós, mas acho que será sempre um progresso. Pelo menos agora sei que partilhar será sempre um meio para aliviar o que tem de se ser aliviado e essa já foi a maior conquista de todas – não ter vergonha de mostrar o meu lado não tão são assim e não tão feliz assim.

Hoje ao almoço falei sobre um dos meus maiores medos, o medo de não conseguir ser sempre inteira. Juro que é das coisas que mais me assusta saber que pode haver um dia que eu não farei alguma coisa com o coração todo ou não ser genuína. E sabem porque é que eu tenho tanto medo disto? Porque eu tenho medo de pessoas assim, morro de medo de um mundo assim e tenho tanto medo de me tornar assim.

Tanto.