O pequeno mundo deles

O pequeno mundo deles

No outro dia a minha mãe mostrou-me as minhas roupas de quando eu era pequenina, contou-me histórias minhas que só ela sabe e no fim pôs tudo numa caixa para nunca se esquecer que a bebé dela já é um bocadinho mais crescida.

As histórias da minha mãe fazem-me perceber que afinal já não só essa menina pequenina mas que ainda tenho muito dela dentro de mim. Depois a minha mãe contou-me algumas das histórias dela e mostrou-me uma composição que tinha feito com seis anos, então começava assim: Gosto muito da Primavera, de flores etc e de àrvores etc. Sim, realmente não admira que a minha mãe seja engenheira. O amor pela escrita e pelo abstracto nunca foram uma vocação.

Fiquei apaixonada por esta história da minha mãe, a minha mãe cumpriu-se,  percebi ao ler aquela composição que ela é prática que gosta que tudo no mundo seja directo e arrumado e ela nunca deixou de ser assim. Aconchega-me o coração ouvir histórias das pessoas de quem gosto quando eram pequeninas, muitas dessas histórias poderiam ocorrer hoje e isso faz me acreditar que os lados mais infantis nunca irão deixar de existir dentro de todos nós. Quando ainda andava na primária esquecia-me de tudo e perdia muitas coisas. Quantas camisolas, lancheiras e brinquedos ficaram perdidos no recreio da minha escola. Ainda hoje acontece ser muito distraída e esquecer-me de coisas. No outro dia o meu pai contou-me que tinha encontrado uma mãe de uma colega minha da primária. A primeira história que ela se lembrou minha foi que um dia eu estava com tanta pressa que ela me encontrou às quatro da tarde e me perguntou onde é que eu ia com tanta pressa, respondi-lhe que me tinha esquecido de almoçar porque tinha ficado a brincar à hora de almoço toda e que não podia ser. Hoje em dia já não me esqueço de almoçar mas continuo a dar prioridade às coisas que me fazem feliz.

No entanto, quando crescemos existe um sentido de responsabilidade que antes não existia. Como já disse de outras vezes, eu tenho muito medos, medos que eu não tinha em criança passei a ter em adulta. Acredito que somos versões crescidas dos pequeninos que éramos mas às vezes esquecemo-nos disso e levamo-nos muito a sério.

Confesso que a minha falta de jeito com crianças deve-se ao medo que eu às vezes tenho de em não conseguir aceder ao lado mais leve da vida. Tenho sempre medo que me olhem como a adulta idiota que ainda não percebeu que o mundo é lindo. Tenho medo de não conseguir aceder ao mundo espetacular que só elas conseguem, por isso é que estas histórias me fazem sonhar e me aconchegam. As crianças são mesmo o melhor que temos no mundo, o resto são só versões estranhas de nós que acham que o mundo precisa sempre de mais qualquer coisa para ser um lugar melhor, mas não.